A Arquibancada da Rua das Camélias
Uma história de: Rafael Gazola Brandão
Mapinho acordou antes mesmo de sua mãe o chamar. Ele tinha dormido abraçado à sua velha
bola de capotão e assim que abriu os olhos se lembrou e deu um sorriso de imediato. Era dia da
final da Copa do Mundo.
Saltou da cama e correu até a cadeira onde a camisa da Seleção Brasileira estava cuidadosamente
dobrada desde a noite anterior. Tirou o pijama e vestiu-a com rapidez, ajeitou o tecido diante do
espelho e se alongou como se estivesse entrando em campo para uma decisão importante.
Na cozinha, o cheiro de café fresco e bolo de fubá pairava no ar. Sua mãe mexia lentamente uma
panela de doce no fogão, enquanto o pai acabava de chegar com uma cesta de morangos recém-colhidos
ainda brilhando com o orvalho da manhã. Um rádio chiava notícias sobre a grande final da Copa.
— Tem alguém aqui que parece estar mais ansioso que os jogadores — brincou o pai.
— Hoje o Brasil vai ser hexacampeão! — respondeu o garoto sentando-se à mesa.
— Esse é o espírito! — comemorou a mãe enquanto servia um pedaço de bolo de fubá com
geléia caseira para o menino.
Após tomar o café da manhã, Mapinho saiu para a rua conduzindo nos pés sua fiel e velha amiga,
a bola de capotão, driblando as pessoas que cruzavam seu caminho e se esquivando de
obstáculos. Em algum lugar por ali era possível ouvir o som de uma corneta buzinando
festivamente.
O clima na Rua das Camélias era diferente aquela manhã, toda enfeitada com bandeirinhas verde
e amarelo fazendo um enorme varal entre os telhados das casas. Logo, Mapinho encontrou seus
amigos enfeitando a rua junto a outros vizinhos. Nina estava manchada de tinta até os cotovelos
enquanto desenhava no muro um jogador da Seleção Brasileira acertando uma bicicleta perfeita.
Ao lado, Bia e Leco ajudavam alguns moradores a pintar uma enorme bandeira do Brasil. Leco
segurava um caderno cheio de anotações e não parava de falar.
— É verdade gente, entre o Tri e o Tetra o Brasil ficou 24 anos sem ganhar, e agora tem 24 anos
do Penta. Tudo se encaixa, o título está garantido.
Os adultos deram risadas da empolgação do menino que buscava em diversas estatísticas e
coincidências, argumentos favoráveis à Seleção Brasileira.
O dia passou voando entre bandeiras, tintas e discussões intermináveis sobre a escalação.
Conforme a hora da final se aproximava, a Rua das Camélias foi mudando de ritmo. As pessoas
entraram em suas casas, os comerciantes baixaram as portas mais cedo e até os cachorros
pareciam latir mais baixo, como se soubessem que algo importante estava para começar.
Mapinho e os amigos se reuniram na casa de Nina, onde a televisão era maior e em meio a
almofadas, se espalharam pelo chão da sala. A velha bola de capotão também estava ali pronta
para entrar em campo.
— Chegou a hora! — disseram eles em uníssono e quase sussurrando.
Pela televisão os jogadores já estavam todos prontos para começar o jogo, a torcida cantava alto
e vibrava como nunca. O árbitro soou o apito inicial e de repente… PUF! A televisão apagou
sozinha. Por alguns segundos ninguém se mexeu, desacreditados no que estavam vendo, até que
Mapinho soltou um grito abafado.
— Nãããão! O que aconteceu?
Bia correu para a janela e chamou os demais amigos para ver. As portas das casas se abriram
quase ao mesmo tempo e seus moradores saíam aflitos para as calçadas. A Rua das Camélias,
que minutos antes estava completamente vazia, agora se enchia de gente desesperada, olhando
para os lados tentando entender o que havia acontecido. Aparentemente um apagão geral
deixou todo o bairro sem energia. Sem televisão e sem internet.
No meio da confusão e do desespero dos vizinhos, seu Anésio da cafeteria surgiu com um
pequeno e empoeirado rádio a pilha.
— Ainda funciona! — ele gritou, girando o botão até um chiado dar lugar à narração do jogo.
As pessoas se aproximaram imediatamente se amontoando umas nas outras para conseguir
ouvir. Mas tinha um problema, o volume era baixo demais para tanta gente e as pessoas
começaram a ficar incomodadas. Até que Mapinho e sua turma se reuniram e tiveram uma
grande ideia. Leco segurou o rádio junto ao ouvido e começou a retransmitir a partida para toda
a rua, com a mesma emoção de um locutor de estádio. Enquanto isso, Mapinho e Bia encenavam
os lances narrados em um palco improvisado para melhor visualização das jogadas. E Nina tratou
de desenhar um placar em uma enorme tábua de madeira presa à parede da cafeteria com os
escudos, o resultado e o tempo atualizado de cinco em cinco minutos.
A plateia se tranquilizou e começou a vibrar e torcer juntos como se fosse uma grande
arquibancada. As pessoas se apertavam em cadeiras de praia, sentavam nas calçadas ou do jeito
que dava para acompanhar o jogo não por uma televisão, mas pela criatividade daquelas
crianças.
No início do segundo tempo a energia voltou e as pessoas começaram a se dirigir para suas casas,
porém, tomados por uma energia em comum, sem que precisasse de convite ou de um
combinado, todos voltaram atrás e decidiram continuar a acompanhar o jogo ali mesmo, com as
narrações de Leco, as encenações de Mapinho e Bia, e o placar interativo de Nina.
Faltando dez minutos para o fim do jogo, o Brasil marca um golaço e a Rua das Camélias explode
de alegria com muitos gritos e abraços efusivos. O apito final soa e a festa fica completa com
uma grande encenação da entrega da taça feita com um tronco de madeira. Uma brisa soprou e
chacoalhou a grande árvore da cafeteria espalhando um monte de pequenas folhas sobre a
comemoração.
Naquele dia, o bairro todo descobriu que a maior vitória não estava no placar final, mas na
alegria de uma comunidade inteira que, quando se une, transforma qualquer dificuldade em
festa e qualquer momento simples em uma lembrança inesquecível.
